terça-feira, 7 de junho de 2016

In www.publico.pt- Artigo de Teresa de Sousa

ANÁLISE

Trump e os “minitrump”



TERESA DE SOUSA

07/06/2016 - 07:15







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1. A Europa ainda está às voltas com o pesadelo do "Brexit" e as eleições americanas são apenas em Novembro. Mas a transformação de Donald Trump de “brincadeira” a candidato dos republicanos começa a pô-la nervosa. Os europeus sabem o que é esta espécie de populismo de milionários que Silvio Berlusconi representou, ainda que numa versão mais moderada. Mas o primeiro-ministro italiano não era o chefe da única superpotência mundial, nem tinha à sua disposição o maior Exército do mundo (de muito longe), nem a maior economia, nem a responsabilidade pela segurança internacional. O simples efeito de total “imprevisibilidade” que Trump traz para a política externa dos Estados Unidos chega para causar ansiedade nos quatro cantos do mundo. Trump já tem a nomeação garantida e já conseguiu o que pareceria impossível aos olhos de um europeu: a progressiva rendição doestablishment republicano, não apenas do Tea-Party, que fez o favor de lhe escancarar as portas, mas também de moderados como John McCain. Hillary, a única que pode travar a caminhada do candidato republicano para a Casa Branca, continua a ver-se perseguida por Bernie Sanders, o outro candidato-surpresa desta campanha, sublinhando o seu carácter inédito.

2. Em matéria de política externa, Trump já disse tudo aquilo que os europeus não querem ouvir. Que a NATO está “obsoleta” e custa demasiado dinheiro aos EUA. Que o Japão deve pagar mais à América pela sua segurança (e a Coreia do Sul também), ou então que trate de construir a bomba nuclear. A mesma receita pode ser conveniente para a Arábia Saudita, de forma a reequilibrar a sua relação de forças com o Irão, cujo acordo nuclear negociado por Obama promete rever. O fundamento da sua política externa é simples: chega e basta aos americanos aumentar (ainda mais) o seu poderio militar para manter o mundo em respeito. A China é outra das suas obsessões. Ameaça aumentar as tarifas de entrada das importações chinesas e invocar a cláusula da “manipulação da moeda” do FMI. Aliás, quer rever todos os acordos de comércio livre negociados nos últimos anos, desde a NAFTA (Canadá e México) até à Parceria Trans-Pacífica e à Parceria Transatlântica (ainda em negociação). Promete deportar os 11 milhões de ilegais a trabalhar nos Estados Unidos, a começar pelos mexicanos e impedir a entrada de muçulmanos. O problema é que é isto que, pelos vistos, cada vez mais americanos querem ouvir. Resume o site da Vox que a presidência de Trump “significaria uma mudança do lugar da América no mundo”. “Não é preciso pensar muito para perceber que põe em causa a equação de segurança fundamental para alguns dos seus aliados mais próximos”.

3. Na Europa, o alarme já está em muitas manchetes da imprensa. “O impensável aconteceu”, escrevia há dias o Die Welt. No Telegraph, um antigo embaixador britânico em Washington avisa que a Europa “tem de o levar a sério.” A questão é saber se não é já tarde demais. Na Europa como nos Estados Unidos, ninguém conseguiu antecipar a força dos sentimentos anti-sistema. Do lado de cá do Atlântico já são raros os países que não tenham direito ao seu “minitrump”. As razões são genericamente as mesmas. Depois da queda de Wall Street e da Grande Recessão, os responsáveis políticos europeus e americanos acreditaram que poderiam regressar ao business as usual com algumas alterações destinadas a controlar melhor o funcionamento dos mercados financeiros. Não viram os sinais de que se tratava de algo muito mais profundo, traduzindo uma rejeição da globalização e dos imigrantes por parte de muita gente que tinha medo de perder os seus empregos, de ver o seu nível de vida ameaçado e o futuro dos seus filhos posto em causa. Walter Russell Mead, que tem escrito muito sobre a história da política externa americana desde a fundação, escreve na American Interest: “Trump atrai todos os que pensam que o establishment americano, the great and the goodde ambos os partidos, já esgotaram ideias que não funcionam e valores que não nos podem salvar. Ele é o candidato do Control-Alt-Delete”

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