quinta-feira, 20 de junho de 2013

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O PENSAMENTO DE ERNEST HEMINGWAY

“Há certas coisas que não se aprendem rapidamente e pelas quais temos de pagar caro com a nossa única moeda - tempo. São as coisas mais simples, e porque um homem leva a vida inteira para as aprender, o pouco que cada homem tira da vida é muito caro e é a única herança que tem para deixar.”
-Ernest Hemingway-

POEMA DE RUY CINATTI (1915-1986)







Quando o Amor Morrer Dentro de TiQuando o amor morrer dentro de ti, 
Caminha para o alto onde haja espaço, 
E com o silêncio outrora pressentido 
Molda em duas colunas os teus braços. 
Relembra a confusão dos pensamentos, 
E neles ateia o fogo adormecido 
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido 
Espalhou generoso aos quatro ventos. 
Aos que passarem dá-lhes o abrigo 
E o nocturno calor que se debruça 
Sobre as faces brilhantes de soluços. 
E se ninguém vier, ergue o sudário 
Que mil saudosas lágrimas velaram; 
Desfralda na tua alma o inventário 
Do templo onde a vida ora de bruços 
A Deus e aos sonhos que gelaram. 

Ruy Cinatti, in “Obra Poética”

domingo, 16 de junho de 2013

A Língua Portuguesa em toda a sua pujança e riqueza: AQUILINO RIBEIRO (REP)





UM POUCO DE TUDO…LITERATURA PORTUGUESA(REP)


 Aquilino Ribeiro (AR)… (1885-1963)

“ALCANÇA,QUEM NÃO SE CANSA”( Aquilino Ribeiro)


São tantos “os monumentos literários” da nossa história das Letras, que se torna difícil escolher um deles, em momento oportuno. Hoje optei por Aquilino Ribeiro (A.R.) pelo que este escritor nos pode dar de riqueza da acentuação, pontuação, uso das linguagens popular, familiar e gírias, nomeadamente, isto em termos de Escrita, de Português escrito.
Passam agora,50 anos sobre a morte do grande escritor; é impossível não me referir a este grande vulto das Letras Portuguesas, mesmo que num pequeno artigo, pois seria necessário dizer dele infinitamente mais do que este espaço comporta.
Ler A.R. é ver o povo nas suas mais genuínas tradições, usos e costumes no uso legítimo da boa disposição perante a vida, que vai começando a faltar-lhe, nos dias de hoje!
A.R é um dos romancistas mais fecundos da primeira metade do século XX. Activista político , principalmente contra a ditadura salazarista, vivia em Londres na altura das convulsões político-sociais e da agitação que haveria de conduzir à implantação da República, em 5 de Outubro de 1910. Foi perseguido depois do assassinato do rei Carlos, esteve preso depois de muito perseguido, mas fugiu da cadeia para passar a viver entre Paris e Berlim, com períodos de permanência no Brasil e em outras capitais do mundo.
Sobre a sua personalidade dizia Salazar, mais ao menos isto:” É um inimigo político, mas é um grande escritor!”
O escritor Fernando Namora referia-se a A.R. como “aquele jovem que trouxera a província para a cidade”. A verdade é que A.R. soube, como poucos, levar por caminhos difíceis a valorização da nossa literatura, em todos os planos. A sua criação literária, expressa em romances como: “O Malhadinhas”, “Terras do Demo”, “Andam faunos pelos bosques”, “A casa grande de Romarigães ”, “Quando os lobos uivam”, etc., dão-nos um panorama de genuíno amor pelas nossas terras e pelas características ímpares do povo oriundo da alta montanha, que, apesar de toda a modernidade, é o que ainda hoje somos.
Aproveitava a “personalidade” que conferia às suas personagens para criticar o modo como via as arbitrariedades do poder e os defeitos do povo e dos governantes; criticava, como ninguém, a falta de justiça que punha o povo na miséria e os governantes nos píncaros do bem-estar, que  a impunidade permitia.
Aquilino lê-se, às gargalhadas, o que é salutar! Da obra”Terras do Demo”, retirei um pequeno extracto, na página 123 de uma edição de 1973, do Círculo de leitores:”Quinze dias estiveram com os pés para a cova; fez-se branco como a cal, depois verde, tornou a pintar de vermelho…a beber umas colherzinhas de leite, mas resulho nem à fina força lhe passava nos gorgomilos…ora chorão, ora raivoso… (…). E, na página199, a respeito de heranças, do morto ainda com os ossos quentes, “…ainda o corpo não fora removido para o celário e já os herdeiros… faziam uma matinçada de cães famintos…
Padre Vieira, no século XVII, num dos seus sermões, trata este tema das heranças e dos desentendimentos dos herdeiros, de um modo mais moralista sem deixar de ser irónico.
O que mais impressiona quem lê A.R. é o seu amor contagiante pala Natureza, em todos os seus extremos, cuja beleza ressalta das palavras do escritor, no sangue vivo da raça portuguesa.
Homem instintivo, nascido e criado na região de Sernancelhe, louvou de um modo, por vezes pagão, a beleza e naturalidade do mundo serrano. Partilhou, com Teixeira de Pascoaes e António Patrício as doutrinas da Saudade, proclamadas na revista “SEARA NOVA”, ele que, por força das divergências políticas com o regime salazarista, várias vezes esteve preso e várias vezes, também, fugiu da cadeia, fazendo ao regime aquilo que ele considerava “o manguito político”.Observador atento da realidade social, pôs sempre em contraste a conduta da gente simples, por vezes ingénua, com a dos trampolineiros da hipocrisia e da mentira do subir na vida, a qualquer custo.
Em “O Romance da Raposa”, perfeito e acabado exemplo do que acabo de afirmar, A.R. compraz-se em demonstrar, por meio das ladinices da “rapozeta”, como procedem na vida todos aqueles que, por meio de truques, procuram e conseguem! suplantar os sérios e honestos, com as suas falinhas mansas. Este romance é, todo ele, uma metáfora da vida!
No romance “A Grande Casa de Romarigães”, riquíssimo em textos de verdadeira prosa poética na descrição de paisagens naturais, repare-se como A.R. começa a descrever o nascimento da floresta:”O vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um safanão… (…) Também ali perto, por uma tarde fosca de Outono, chegou um gaio, voejando de chaparro em chaparro, a grasnar mal-humorado…trazia no bico uma bolota. Dispunha-se a comer a merenda bem amargada, quando deu com os olhos no mariola do vizinho com quem bulhara na Primavera por causa da gaia, hoje sua mulher.”
Puras mimésis, animismo de uma Natureza, que enchem a alma de quem o lê com amor e onde transparece a mesma técnica de Torga no amor telúrico por tudo quanto mexe, sobre e sob as terras , os solos
Nas obras “Mónica” e o “ Arcanjo Negro”-que estiveram proibidas até 1947- Aquilino envereda por uma crítica velada ao regime salazarista, através de Metáforas como “más estrelas” ,”negrume” e onde até mesmo o verbo “envelhecer” remete para  a bruma nevoenta que era, já no seu tempo,(como sempre foi!)o regime de Salazar. Nestas obras nota-se um certo pessimismo histórico, como se não houvesse nada que levasse um intelectual a ter esperanças de mudança. Infelizmente, só em 1974 se deu a ansiada reviravolta, que ele não pôde aclamar.
Convém dizer que, na sua vida, o autor passou algum tempo no seminário, tentando convencer-se de que devia ser padre, como seu pai… mas parece que não estava destinado a tal fim…o que muito entristeceu a família! Espírito inquieto e crítico, cedo viu os contrassensos dos dogmas da religião católica e cedo se apercebeu da hipocrisia de seus colegas e “irmãos” de desdita o que levou à sua expulsão do seminário! Digamos que se perdeu um mau padre,mas que se ganhou um bom escritor, reconhecido em todos os círculos intelectuais do país e do mundo!É engraçado ver como ele próprio descreve a sua falta de aptidão para as “coisas” da Igreja, na obra “Um Escritor confessa-se”:…”Eu entrara para o seminário crente, crente absoluto, e lá senti que ali estava a despir a carapaça religiosa com que se nasce, que nos tolhe da idade da razão de dar o tombo para o desespero e o pessimismo.”
Legou-nos setenta notáveis obras! Nunca se desligou da luta política e foi, com setenta e tal anos, activo apoiante de Humberto Delgado.
Para terminar esta simples abordagem da estética aquiliniana, gostaria de dizer que, em qualquer época da vida literária portuguesa os escritores e outros intelectuais estiveram em consonância com as realidades do país…Hoje, ao lê-los, devemos fazê-lo com amor e espírito crítico, para sermos capazes de encontrar as VERDADES com que o país, neste momento, se confronta…

NOTA: há dois ou três anos, escrevi sobre Aquilino Ribeiro, no Jornal da Mealhada, um artigo que reformulei, de acordo com a data que hoje se comemora. Sendo um artigo diferente na temática e no enriquecimento da mesma, devo, apesar de tudo, em nome de mim própria, dizer-vos o que acabo de dizer!

Bibliografia: recorri a livros meus de quando leccionava, a Histórias da Literatura e a obras de A.R. que possuo; para as datas, fui à INTERNET.


Mealhada,25 de Fevereiro de 2013










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sábado, 15 de junho de 2013

SOBRE A FÉ , EM JOSÉ RÉGIO:





De paginas.fe.up.pt, um resumo sobre a obra de fé de José Régio (1901-1969):



...

"A personalidade e a obra de José Régio enchem uma época, ocupam um importante espaço da vida mental portuguesa, e só por si são o orgulho para o século XX não ter que invejar o século XIX português. Régio, tão religioso como Antero, foi mais completamente artista e tão filósofo como ele. Foi mesmo o que Antero não chegou a ser: um homem realizado em todos os aspectos em que aspirou realizar-se. Não se realizou a nível político, mas também não foi um político mas antes de tudo um homem religioso. Situá-lo numa época antes de mais política e conferir-lhe em função dessa época os atributos que revestiam a sua missão enquanto escritor é, se não mais, anacrónico. Régio procurou acima de tudo ser um espírito religioso, não apenas no sentido passivo que a religião apresenta nos seus místicos, mas no sentido positivo que a religião apresenta nos seus representantes proféticos, nos seus apóstolos, nos seus evangelizadores."


NOTA : A FÉ É UM DILEMA COM QUE O SER HUMANO SE DEBATE, PERANTE UMA VERDADE DA CRIAÇÃO. OS POETAS TRATAM ESSE TEMA COM A RIQUEZA SUBJECTIVA DA ALMA. 
SE LERMOS MIGUEL TORGA(SÉC. XX), ANTERO DE QUENTAL (SÉCULO XIX), VERGÍLIO FERREIRA (SÉCULO XX) E TANTOS OUTROS POETAS E PROSADORES, NÃO NOS SENTIMOS SÓS NAS NOSSAS INSEGURANÇAS, PERANTE O SUPREMO. 
AFINAL, O HOMEM NÃO É PERFEITO E INTERROGA-SE, CONTINUAMENTE:

Maria Elisa R. Ribeiro
Não gosto ·  · Promover · 

JOSÉ RÉGIO (1901-1969)







CIRCO
No circo cheio de luz
Há tanto que ver!...

"Senhores!"
-Grita o palhaço da entrada,
Todo listrado de cores-
"Entrai, que não custa nada!
À saída é que se paga..."
..................................
O palhaço entrou em cena,
Ri, cabriola, rebola,
Pega fogo á multidão.

Ri, palhaço!
Corpo de borracha e aço
Rebola como uma bola,
Tem dentro não sei que mola
Que pincha, emperra, uiva, guincha,
Zune, faz rir!
.....................................

José Régio, As Encruzilhadas de Deus

sexta-feira, 14 de junho de 2013

REVER SOPHIA de MELLO BREYNER PARA OS EXAMES NACIONAIS/2013








LITERATURA PORTUGUESA:

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (PORTO, 1919-2004)


Palavras da poetisa: ” Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito da verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem.”
Mais ainda: em 11 de Julho de1964, quando a SOCIEDADE PORTUGUESA DE AUTORES A HOMENAGEOU, ATRIBUINDO-LHE O GRANDE PRÉMIO DE POESIA, pela obra “LIVRO SEXTO”, disse SOPHIA, num texto do qual a minha sensibilidade destaca algumas frases: “e o tempo em que vivemos é o tempo de uma profunda tomada de consciência (…) Não aceitamos a fatalidade do mal. (….). Como ANTÍGONA, a poesia do nosso tempo não aprendeu a ceder aos desastres. (…). A obra do artista vem sempre dizer-nos “que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.” In “DIMENSÃO LITERÁRIA”- PORTO EDITORA-ISBN 972-0-40055-2- (página 335).
Por vezes, o que aparentemente é fácil, torna-se, de repente, difícil. Isso acontece-me, frequentemente, quando começo a medir as palavras para falar de temáticas que se relacionam com a obra de certos vultos literários, como é o caso da poetisa que hoje vos trago e que é, nem mais nem menos que SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (S.M.B.A.).
A sua poesia é uma das mais lindas dos últimos tempos da Literatura Portuguesa. Sei que nem todos apreciam; mas sei também que, na minha qualidade de Professora de Português, aprendi a amar as suas palavras e a sua visão do mundo, em função dos meus alunos e do programa desta disciplina. Quanto maior é o amor de um Professor pelo que transmite aos seus alunos, maior é a possibilidade de êxito dos mesmos. A poesia de S.M.B.A. é linda, colorida, cheira a mar e à Grécia antiga…brilha no Sol dos sentidos, atirando-nos à face a água do mar e da infância, o cheiro das paredes da casa da meninice, a maciez das areias da praia, a espuma das ondas quebradas aos seus pés…
Poema “CASA BRANCA”: “Casa branca em frente ao mar enorme, / Com o teu jardim de areia e flores marinhas/…A ti eu voltarei após o calor incerto…/(…) Passados os tumultos e o deserto/Beijados os fantasmas… da terra indefinida./”
Dado que a leitura nos enriquece e a poesia nos transmite sensibilidade para melhor entendermos o mundo que nos rodeia e em que estamos inseridos e dado que somos seres dotados de capacidades que escapam a outros seres da criação, aconselho os amigos leitores a aprofundar esta matéria a vosso bel-prazer, na certeza de que saireis enriquecidos…
A obra poética de S.M.B.A. é contaminante e, se nos esforçarmos, permanece em nós o desejo de continuar a “ser contaminado”. Esfusiante na afirmação dos valores que devem reger a vida do Homem, enquanto ser superior da criação, encontramo-la, em vários poemas, a lutar contra o farisaísmo e a hipocrisia, a discriminação, as injustiças sociais, a falta de liberdade das gentes no período salazarista, a miséria, etc.
Vejamos extractos dos poemas “OS FARISEUS” e “ AS PESSOAS SENSÍVEIS”. O primeiro compara o sofrimento humano ao de Cristo, traído pelos fariseus, vítima maior da hipocrisia humana, segundo a vontade do PAI. O tema é abrangente, na medida em que “toca” os que vivem atirando a pedra, ao mesmo tempo que escondem a mão; daí que a poetisa termine, dizendo:”NEM UMA NÓDOA SE VIA/ NA VESTE DOS FARISEUS.”
No poema “AS PESSOAS SENSÍVEIS”, impera, igualmente, a temática da mentira, do farisaísmo e das injustiças sociais, das quais a exploração dos pobres pelos ricos, sobressai, quando ela diz: ”As pessoas sensíveis não são capazes/De matar galinhas/ Porém são capazes/ De comer galinhas/, (…) Ganharás o pão com o suor do teu rosto/” e não:”Com o suor dos outros ganharás o pão.” Este poema termina com uma frase lapidar: “PERDOAI-LHES SENHOR/ PORQUE ELES SABEM O QUE FAZEM. ”
Amante do MUNDO CLÁSSICO Grego, sobretudo, S.M.B.A transporta esse mundo e esse amor para o século XX, em poemas onde refere a grandiosidade dos muros de Knossos, a dura luz de CRETA, DELFOS do Oráculo, onde “ressurgiremos” de um mundo mau, isento de harmonia, cheio de desigualdades sociais e de tiranias opressoras (alusão ao período salazarista) ideias que imortaliza no poema “PÁTRIA”: “ (…) Por um país de luz perfeita e clara( ideia de liberdade), (…)Pedra rio vento casa/Pranto dia canto alento/Espaço raiz e água/ Ó minha Pátria e meu centro / Me dói a luz me soluça o mar/ E o exílio se inscreve  em pleno tempo (LIVRO SEXTO ,1962). Ao fazer tais afirmações, Sophia recorda-nos a grandiosidade d’outrora que já não o é mais, porque o povo sofre a “miséria que o tempo desenhou”, no tempo da ditadura salazarista. Esta mulher, uma das mais notáveis poetisas portuguesas do séc., passado, condição que perdura pois o poeta é intemporal, foi também uma lutadora anti-fascista ao lado de seu marido, Francisco de Sousa Tavares, atitude social que se pode ver, nomeadamente, no poema “Este é o tempo”: “Este é o tempo/ da selva mais obscura/Até o ar azul se tornou grades/ E a luz do sol se tornou impura/ Esta é a noite/Densa de chacais (…) Este é o tempo em que os homens renunciam. ”
Fala Sophia, em vários poemas, do tema “exílio”, o que não é senão um modo de avivar o espectáculo degradante da emigração, na década de sessenta, em que se viam os portugueses a fugir do regime e da miséria atávica. Como sabemos todos, hoje, século XXI, continua este nosso ir pelo mundo fora, à procura de empregos que cá não temos, buscando “outras canelas e pimentas”, sofrendo novas despedidas, novos lenços a acenar, novos trajos negros a derramar lágrimas de dor…
É impossível não detectar na sua obra influências de Fernando Pessoa. Amando, como demonstra amar, os clássicos, mereceu-lhe especial carinho o heterónimo RICARDO REIS, a quem dedicou um poema, onde, seguindo as suas pegadas, reafirma que só o Presente conta, já que o Futuro é uma incógnita e o Passado de nada já pode valer. Nesse poema lembra a lição dos deuses ausentes, porque: ”O seu olhar ensina o nosso olhar:/Nossa atenção ao mundo/ É o culto que pedem. ” In “DUAL” (1972)
Esta é uma perfeita atitude epicurista, clássica-pois claro!- de quem usufrui plenamente do momento presente, pois KRONOS( deus do tempo) passa, inexoravelmente, sem nos conceder mais tempo que aquele que os deuses nos destinaram…Mas SOPHIA identifica-se também com ALBERTO CAEIRO, outro heterónimo de PESSOA, no amar a Natureza com a simplicidade dos sentidos; por isso fala tanto da maravilha que é apanhar búzios, conchas, ter as mãos e os pés
enterrados na doçura da areia , sentir a água do mar a fugir-lhe ,por entre os dedos …
MALLARMÉ, poeta francês do século XIX (1842-1898) afirmava, sobre a tarefa dos poetas: “dar um sentido mais puro às palavras da TRIBU, é uma missão do poeta.”
E como SOPHIA cumpriu essa missão! Linda de se ler, bela de se ouvir, rica de aprender!
Podemos, para concluir, afirmar que é belo tudo quanto nos possa vir à ideia, depois de a lermos: o Parthenon, a estátua de Apolo, o templo de SÃO PEDRO, EM ROMA, a incomensurável MURALHA DA CHINA, o TAJ MAHAL… pois tudo, à semelhança da poesia de S.M.B.A., foi feito pela mão e pela mente do Homem, com alegria e dor, na tentativa de “cantar” e elevar a “obra” para DEUS, esse Ser que para uns é DEUS, para outros ALÁ, para outros Jeová…Buda…Confúcio… KRISHNA… todos objecto de admiração do ser humano, o mais imperfeito dos seres perfeitos do PLANETA …
SOPHIA não foi poetisa, somente, pois talvez pelo facto de ter sido mãe de cinco filhos, cedo se dedicou à escrita de contos, que AINDA hoje fazem parte do universo literário dos programas de PORTUGUÊS. RECORDEMOS: “A FADA ORIANA”, “ O CAVALEIRO DA DINAMARCA”, “ A FLORESTA”, “ A MENINA DO MAR”, por exemplo. Não se esgota o tema “ SOPHIA”…Devem os leitores interessados aprofundá-lo, se assim o entenderem. Diz o povo que “o saber não ocupa lugar”… SOPHIA afirma: “Um verdadeiro livro propõe sempre uma maneira de ser”



quinta-feira, 13 de junho de 2013

EUGÉNIO de ANDRADE-(Lembrar, para o exame nacional do 12º Ano)






UM POUCO DE TUDO…



Hoje: a limpidez e a claridade na poesia de EUGÉNIO de ANDRADE
De Eugénio de Andrade diz ANTÓNIO LOBO ANTUNES:
“Este poeta é o amigo mais íntimo do sol…mas é, igualmente, o conhecedor melancólico da sombra.”

A poesia de Eugénio de Andrade (E.A) foi sempre, apesar da transparência (aparente…) e da simplicidade, um campo onde o sol alterna com a sombra, a terra com o céu, a justiça com a injustiça, e assim por diante, no campo de todos os opostos que caracterizam as vivências humanas.
Desse modo, do que sei sobre este poeta, posso dizer que ele trabalhou, com lágrimas nas mãos, os temas mais naturais da Vida do HOMEM-SER: a casa, a terra, o ar, o fogo do amor e da vida, da paixão pelo que somos e fazemos…guardando, nessa poesia, um lugar muito especial para a figura da MÃE: …”No mais fundo de ti/ eu sei que traí, mãe. /Tudo porque já não sou/ o menino adormecido/ no fundo dos teus olhos. /…Ainda oiço a tua voz: “Era uma vez uma princesa/ no meio dum laranjal…”
Não me esqueci de nada, mãe. /Guardo a tua voz dentro de mim.”
A poesia de E.A sentiu-se envelhecer, à medida que envelhecia o poeta: foi uma vida a dois, com a qual ambos lucraram; nos ardores da juventude e, mais tarde, naquela idade em que, apesar dos “enta”, ainda nos sentimos capazes de ser jovens…foi isso mesmo que o poeta fez com o leitor, oferecendo-lhe uma mensagem poética clara, diurna, solarenga, em que ele quase nos pede que peguemos a vida nas mãos, tão maravilhosa ela é!
Mas o poeta tem consciência do fatal envelhecimento e das fracturas que provoca, em todos nós, pois começamos a ver diminuir os dias que faltam para a fatal Verdade do homem. A noite cerca-nos e a solidão, mesmo que acompanhados, dói:” Hoje deitei-me ao lado da minha solidão…” E então, a velhice torna-se para o poeta “uma doença da alma”.
Para nos ajudar na interpretação da sua poesia o poeta busca, afincadamente, a PALAVRA certa, aquela de que qualquer um precisa, “naquele exacto” momento para lançar aos ventos a Mensagem. Por isso, sofre, pois, tendo tantas à sua disposição…há sempre outra que talvez “ali” ficasse melhor…
Sobre as palavras diz, então, E.A:”São como um cristal…/…Algumas, um punhal, um incêndio…orvalho…secretas…inseguras…pálidas…desamparadas…cruéis…desfeitas…”
A sua linguagem sentida tem por função despertar no leitor as emoções indispensáveis à “leitura”, à compreensão da mensagem poética.
E sabe-me a música qualquer poema deste homem superior, tocado pela Musa!
O escritor Vergílio Ferreira chamou-lhe “Poeta da intensidade”; e essa intensidade espalha-se de tal modo a toda a sua temática que é forçoso ver na sua obra a preocupação humanista, nomeadamente quando se refere ao corpo humano, à mãe, à terra, à casa- lar, à saudade, ao corpo, à luz e às sombras.
ERNST CURTIUS diz:”…tema é tudo o que tem a ver com as relações primitivas da pessoa com o mundo.”
Ora, há por aí gente que, como as plantas mirradas, nunca chega a desabrochar. Ou, por razões que a própria razão desconhece, ou porque não conseguem abrir-se ao mundo devido a um número elevado de motivos, que se prendem até com condições educacionais, sociais e/ou político-filosóficas, impeditivas do conhecimento, que as pode engrandecer. Isso não aconteceu com o nosso poeta de hoje, o qual, apesar das adversidades, se impôs, “libertando-se da lei da morte”, como dizia Camões, dos outros heróis, de antigamente.
O amor, sobretudo, e particularmente, atravessa a sua obra; reparem na beleza que se expande do poema “Urgentemente”: “É urgente o amor…/É urgente destruir certas palavras, / ódio, solidão e crueldade;/ alguns lamentos, / muitas espadas/…É urgente inventar a alegria!”
Eu diria, “ reinventar”…pois, entendo o poema também como um apelo à PAZ, a tudo o que possa unir o Homem à terra em que habita e com a qual forma um corpo místico, uno.
A terra, o nosso mundo, tal como nós próprios, é imperfeita, dado que nós para isso contribuímos e, por esse motivo, alterna sol com sombras…Ora o poeta anseia por luz e claridade, pelo discernimento que encaminha a personalidade para o aperfeiçoamento.
Assim, sofrendo com as dores do mundo que o rodeia, declara-se, abertamente contra o “ nuclear”, por exemplo, dando um testemunho importante para essa questão, no poema: “Ao Miguel, no seu 4-0 aniversário e contra o nuclear, NATURALMENTE!”
Amigos leitores: mesmo que pensem que não gostam de “versos”…façam de conta que gostam! Andem lá…leiam um bocadinho de qualquer um, dos tantos melodiosos poemas da nossa história literária e, se quiserem, tirem dúvidas comigo!
Deixo-vos, hoje, com um pensamento de Montaigne; nem importa quem ele é…Basta que reparem na sua mensagem: “O fim último da vida não é a excelência mas sim, a felicidade.”











Maria Elisa Rodrigues Ribeiro
lisitarodrigues@gmail.com


quarta-feira, 12 de junho de 2013

SANTO ANTÓNIO, DR DA IGREJA E PADROEIRO DE LISBOA


Santo Antônio, esse desconhecido
Frei Hugo Baggio

1. O risco de ser taumaturgo

Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa confunde-se com o milagre. Seu nome é uma legenda. Sua vida histórica, uma sucessão de fatos extraordinários. Sua afirmação na Cristandade, em mais de 770 anos após sua morte, um esbanjamento de poder e força. Realmente, Santo Antônio e o milagre confirmam, na opinião do povo cristão, a frase de Cristo: “Fareis coisas ainda maiores do que eu”. Sem dúvida, mais numerosas. Não há canto ou recanto da humana fragilidade e necessidade que Santo Antônio não tenha visitado com seu poder ou não tenha marcado com sua presença carinhosa, atendendo pedidos e refazendo ou consertando situações humanamente irreparáveis.
Se de um lado, tal aspecto coloca Santo Antônio entre os santos mais conhecidos e mais queridos e, consequentemente, mais procurados, do outro, distorce a verdadeira feição de Santo Antônio. Fica ele, assim, sendo conhecido e admirado apenas sob o aspecto do maravilhoso, permanecendo, por completo, nas sombras, as outras facetas, de tal maneira que, mesmo publicações sérias e especializadas, omitem-se em muitos pontos importantes, ou silenciam completamente, manifestando um estranho desconhecimento. Assim, como teólogo, como místico, como exegeta, como moralista, como psicólogo que sabia conduzir as massas, Antônio é quase totalmente desconhecido. Porque os milagres enchem as biografias e os estudos, historiadores do dogma o ignoram, pesquisadores da Escolástica o deixam de citar, estudiosos da mística medieval não lhe dedicam verbete ou coluna, silenciando sua contribuição à mística e à ascética.
No entanto, no dia 16 de janeiro de 1946, o Papa Pio XII, pelo Breve Exulta Lusitania felix, proclamava Santo Antônio Doutor da Igreja."( Através de www.conventodossantos.br

O PENSAMENTO DO CIENTISTA STEPHEN HAWKING (pesquisa NET)





O Pensamento de STEPHEN HAWKING:

"CIÊNCIA x RELIGIÃO: O Pensamento de Stephen Hawking
"DEUS NÃO TEM MAIS LUGAR NA CRIAÇÃO DO UNIVERSO"



O cientista britânico Stephen Hawking afirma, em seu novo livro The Great Design (O Grande Projeto), que "Deus não tem mais lugar nas teorias sobre criação do universo, devido a uma série de avanços no campo da física", segundo trechos da obra publicados nesta última quinta-feira (02/09/2010).


Demonstrando uma posição mais dura em relação à religião do que a assumida nas páginas do best-seller internacional "Uma Breve História do Tempo: do Big Bang ao Buraco Negro", de 1988, Hawking diz que o Big Bang foi simplesmente uma consequência da lei da gravidade: "Por haver uma lei como a gravidade, o universo pode e irá criar a ele mesmo do nada. A criação espontânea é a razão pela qual algo existe ao invés de não existir nada, é a razão pela qual o universo existe, pela qual nós existimos", escreve o célebre cientista em "The Grand Design", que será publicado em série no jornal The Times. "Não é necessário que evoquemos Deus para iluminar as coisas e criar o universo", acrescenta.


Hawking se tornou mundialmente famoso com suas pesquisas, livros e documentários sobre Física Teórica, apesar de sofrer desde os 21 anos de idade de uma neurodistrofia aguda, uma doença degenerativa dos músculos que não afetou o cérebro, que o deixou dependente de uma cadeira de rodas e, após contrair uma traqueostomia, de um sintetizador de voz para se comunicar. Em "Uma Breve História do Tempo", Hawking sugeria que a ideia de Deus ou de um ser divino não é necessariamente incompatível com a compreensão científica do universo: "Se nós descobrirmos uma teoria completa, será o triunfo definitivo da razão humana - pois então poderemos conhecer a mente de Deus".


Em seu mais recente trabalho, no entanto, Hawking cita a descoberta, feita em 1992, de um planeta que orbita uma estrela fora do Sistema Solar, como um marco contra a crença de Isaac Newton de que o universo não poderia ter surgido do caos: "Isso torna as coincidências de nossas condições planetárias - o único sol, a feliz combinação da distância entre o Sol e a Terra e a massa solar - bem menos importantes, e bem menos convincentes, como evidência de que a Terra foi cuidadosamente projetada apenas para agradar aos seres humanos", afirma Hawking.

http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI4656234-EI301,00-Stephen+Hawking+Deus+nao+tem+mais+lugar+na+criacao+do+universo.html
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terça-feira, 11 de junho de 2013

POEMA: AZUL DA VIDA






NOTA: um poema , aparentemente, difícil. É diferente do que habitualmente escrevo, mas "pediu-me" para ser escrito deste modo...
Tem a ver com a criação poética, o valor das palavras, o sentir poético no comunicar...A poesia, de qualquer modo, é VIDA! Vida-mar. vida-flor, vida-ave, vida-vulcão...um mundo por desvendar!





AZUL DA VIDA

Dispersa-se, o azul da vida,
por colinas que falam aragens,
nevoeiros densos, intensos,
brumas a desvendar…

Meu AZUL…MINHA MÍSTICA-RIZOMÁTICA
que IRRADIA para espaços, gentes e lugares…
EU, CENTRO DO MUNDO, DO MEU MUNDO…
Vulcão profundo da POESIA lateral,
lanço minha lava natural pelas colinas da vida
por onde o FOGO vai passar!

 Meu mistério, de azul vestido,
É minha COLECTÂNEA DE PALAVRAS.
Com elas me torno EU, a caminhar para o MUNDO,
CENTRO DE MIM…NO CENTRO DELE!

Navego –me  numa eterna circum-navegação,
Na escolha de vocábulos que sirvam a transformação,
Em ELEMENTOS DE UNIÃO ENTRE O NADA E A MENSAGEM
DA CORAGEM DE VIVER-SOBREVIVER-ESTAR/SENDO.

ODISSEIA DOS SIGNOS LINGUÍSTICOS
Que contam histórias como a MINHA
E a de todos os UNIVERSAIS-USANTES-DO-PLANETA-LINGUÍSTICO.

Tocam TAMBORES-NO-RUMOR-DA-HUMANA-VONTADE-DE- ENTENDER…
CENTRO CÓSMICO…
…EU ACONTEÇO na MENSAGEM que crio----------------------------------
LUZ-ENTENDIMENTO CREPUSCULAR-----------------------------------------
Verdade a brilhar no TEMPO –A- RETOMAR –O- SEU CURSO-
NO RUÍDO DO RELÓGIO MÍSTICO-------------------------------------------------

PALAVRA- empreendimento - feito-de-astúcia------FADO/PERIGO
No meu descer AO INFERNO DA VERDADE!
Pelo caminho, mato males que vulcanizam MENSAGENS-AMOR.
ESCORREM LAVAS VELHAS…
RESSURGEM VOCÁBULOS COM VONTADE DE CAMINHAR!

VAI, POETA! LEVA AS PALAVRAS! SOLTA-AS!

C10J-12-JAN/011(MSG)

Maria Elisa R. Ribeiro
(Marilisa Ribeiro)


segunda-feira, 10 de junho de 2013

SAUDAÇÃO AOS MEUS IRMÃOS DE LÍNGUA PORTUGUESA, ESPALHADOS PELO MUNDO, NESTE DIA DE PORTUGAL/2013





MEUS IRMÃOS NA PORTUGALIDADE: É DIA DE PORTUGAL.

MAIS UM 10 DE JUNHO EM QUE , NA PÁTRIA, SE LEMBRAM OS SONHOS DOS PORTUGUESES, LEVADOS PELO MUNDO, HÁ SÉCULOS, QUE NOS TRANSFORMARAM NUMA COMUNIDADE DE FALANTES DE LÍNGUA PORTUGUESA, UNIDOS POR UM INEXPLICÁVEL SENTIMENTO DE SAUDADE.

VENHO DAR-VOS UM ABRAÇO, NESTE MOMENTO EM QUE "A DITOSA PÁTRIA, MINHA AMADA" ESTÁ A CHORAR LÁGRIMAS DE ANGÚSTIA E DESESPERANÇA:

SÃO TRISTES OS TEMPOS QUE ESTAMOS A VIVER; MAS É COM AMOR E SAUDADE QUE A TODOS SAÚDO, COM A CONVICÇÃO DE QUE MELHORES DIAS HÃO-DE VIR E QUE O ORGULHO NACIONAL HÁ-DE RENASCER "DAS BRUMAS DA MEMÓRIA"



UM ABRAÇO DE "IRMÃ" PARA TODOS VÓS!


VIVA PORTUGAL GRANDIOSO!

sábado, 8 de junho de 2013

Forbela Espanca (REP)





LITERATURA PORTUGUESA-FLORBELA ESPANCA


UM POUCO DE TUDO…
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Hoje: FLORBELA ESPANCA

Nasceu Florbela Espanca em Vila Viçosa, em 1894.
O poeta José Régio, referindo-se à grande poetisa, afirma: ”…Florbela viveu a fundo estados, quer de exaltação a si mesma quer de dispersão em tudo; na sua poesia, estes atingem vibrante expressão.”
( In “Aula Viva”-12º ano-Português B- Porto Editora, J.A da Fonseca Guerra e José A. da S.Vieira, pág.422 (1999)
Deixem-me ser imodesta…Não me é muito difícil escrever algumas palavras sobre esta grande, estranha, um pouco”misteriosa” poetisa, da Língua Portuguesa. Não é, portanto, vaidade que me faz falar assim. É amor pela sua obra, que adoro ao encontrá-la cheia, quer de vida quer de morte, tanto no aspecto linear, literal, como no aspecto subjectivo.
Ser humano, ao mesmo tempo emocional e deífico, Florbela não pode ser tratada, como merece, num artigo resumido como este… Farei os possíveis por vos dar algumas ideias, as necessárias para despertar em vós, leitores, a curiosidade indispensável para a lerem…
Era poeta seu pai também, pelo que, desde cedo encarreirou a vida dos filhos, Florbela e Apeles, no sentido do amor pelas artes Alma sensível, Florbela desde cedo lhe seguiu as pisadas, embora “quase” sem querer… Mulher de temperamento triste e angustiado, acabou por cair numa espécie de narcisismo próprio dos românticos, ao considerar que ninguém era tão infeliz nem tão incompreendido como ela. Não foi feliz no amor; por conseguinte, nem menos o foi no casamento; não teve filhos, mas consagrou a sua capacidade maternal de amar, -de corpo e alma! -ao irmão Apeles, no qual via o filho que não teve. No nosso meio pequeno-burguês houve quem quisesse atribuir a este amor pelo irmão outras feias conotações. Li muito a este respeito, até porque adoro a sua obra. NÃO ENCONTREI NADA DE MENOS PRÓPRIO, NO AMOR DE UMA IRMÃ PELO SEU IRMÃO.
A grande verdade está em que Florbela nunca se sujeitou a ninguém…foi um espírito livre e angustiado, que fracassou em três casamentos. Mulher demasiado moderna para os tempos em que viveu, o seu sentido de visão da vida com liberdade, não era bem aceite pelas mentalidades tacanhas e farisaicas dos princípios do séc.XX: ela sobressaía da mediocridade “empalada” entre as paredes da vitoriana Évora… Espírito livre, fumava, vestia calças, tinha carta de condução…Horror dos horrores, no meio do farisaísmo próprio daquela época! Os leitores sabem, como eu, que ainda hoje, em certos locais do nosso país, as pessoas diferentes são olhadas, também, de modo diferente…
A morte do irmão fê-la entrar em depressão e” precipitou” a sua dor de viver e ela que nasceu no dia de Nossa Senhora da Conceição e que ensinou no Colégio de Évora com o mesmo nome, veio a falecer no mesmo dia, com 36 anos de idade! Não sendo vasta, a sua obra é sentida e significativa. Cantou o Amor: amor pela vida, pela Natureza, pelas
coisas simples da vida…Ao Amor liga-se a ideia da dor dos desejos nunca alcançados e, aí está a mistura explosiva da obra da poetisa:”Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: aqui…além…/Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…/Amar! Amar! E não amar ninguém!”
Discípula de Antero de Quental, na medida em que, pelo estilo,”atirava ao vento” o drama íntimo da falta de Amor, diz ela sem ligar às convenções morais burguesas, tantas vezes falsas, vitorianas e hipócritas: “O amor de um homem? Terra tão pisada, / Gota de chuva ao vento baloiçada…Um homem? - Quando eu sonho o amor dum Deus!” (pág.423, do livro já citado). E, para além deste tipo de Amor, outro dominava a vida de F.E: perdia-se, ela, pelo Alentejo, região “entidade mítica” a sofrer o desprezo dos deuses da chuva, que dela se esqueciam, no momento da sua distribuição equitativa. Vai daí: “Horas mortas…Curvada aos pés do Monte/A planície é um brasido…e, torturadas, / As árvores…gritam a Deus a bênção duma fonte! /…Árvores! Não choreis! Olhai e vede: -Também ando a gritar, morta de sede, / Pedindo a Deus a minha gota de água!”
Mas, para dizer tudo isto, a poetisa sabe que são precisas Palavras…Não há poeta que o não saiba…Palavras que falem, sentidas, cheias de “mistério” na mensagem que o leitor deve descodificar! Não é poeta quem quer…E então, diz Florbela: “Ser poeta é ser mais alto…é ser maior…/É ser mendigo e dar…É ter fome e sede de Infinito!”
Não há na obra de F.E. muitas palavras de optimismo e /ou alegria de viver; ficamos sempre com a sensação de que, narcisicamente, ela se “decide” a não ser feliz…Encontramos, nessa obra, um lote significativo de palavras de conotação triste, como:”ciprestes”, “poentes de agonia”,”brasido”, “mar de mágoa”, “só”, “ crepúsculo”, “noite”…Pode dizer-se que ela procurou a felicidade no desespero insaciável da vivência e que isso a conduziu ao pessimismo do existencialismo absurdo, de depois da IIª Grande Guerra.
Não é seguro afirmar que ela se suicidou, segundo vários estudiosos. Isso é um mistério entre ela e Deus, que tanto procurou: ”Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza…/Queria encontrar Deus! Tanto O procuro!”
Chegamos a esta conclusão: em Florbela Espanca, quando acaba o sonho da vivência que não teve, começa a dor do que tem…E tem solidão, amargura, angústia! NARCISISMO? Ah! Mas com certeza!

Maria Elisa Rodrigues Ribeiro-(REP.)

POEMA DE FLORBELA ESPANCA (1894-1930)







Diz-me, Amor, como Te Sou QueridaDize-me, amor, como te sou querida, 
Conta-me a glória do teu sonho eleito, 
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito, 
Arranca-me dos pântanos da vida. 

Embriagada numa estranha lida, 
Trago nas mãos o coração desfeito, 
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito 
Que me salve e levante redimida! 

Nesta negra cisterna em que me afundo, 
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura, 
Agonia sem fé dum moribundo, 

Grito o teu nome numa sede estranha, 
Como se fosse, amor, toda a frescura 
Das cristalinas águas da montanha! 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"