....porque LER faz bem...
"As minhas palavras têm memórias ____________das palavras com que me penso, e é sempre tenso _________o momento do mistério inquietante de me escrever"
sexta-feira, 2 de abril de 2021
De Ma Judite de Carvalho
Estou Só
Uma noite dos meus quinze anos dei comigo a chorar. Não sei já qual foi o caminho que me conduziu às lágrimas, tudo vai tão longe, perdido na fita branca do passado. Só me recordo de que o pai me ouviu e se levantou. Sentou-se ao de leve na borda da minha cama, pôs-se a acariciar-me os cabelos, quis saber o que eu tinha.
- Estou só, pai. Não é mais nada. Dei porque estava só e isso pareceu-me... Que parvoíce, não é? Estou agora só! E tu então?
Tentei rir a tapar-me, já arrependida da franqueza, mas ele não colaborou e isso salvou-o da raiva que eu havia de lhe ter na manhã seguinte. Não se riu e a sua voz, quando veio, era muito doce, quase triste.
- Também deste por isso - disse brandamente. - Também deste por isso. Há gente que vive setenta e oitenta anos, até mais, sem nunca se dar conta. Tu aos quinze... Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança.
- Mas tu, pai...
- Eu... As pessoas que enchem o teu mundo são diferentes das do meu... No fundo é muito provável que algumas delas sejam as mesmas, mas aí está, se fosse possível encontrarem-se, não se reconheciam nem mesmo fisicamente... Como havemos de nos ajudar? Ninguém pode, filha, ninguém pode...
Ninguém pôde.
Maria Judite de Carvalho, in 'Tanta Gente, Mariana'
quinta-feira, 1 de abril de 2021
Minha Poesia
GOTAS SALGADAS
Será possível que, nos mares que encontrámos,
as ondas tenham desaparecido dos lugares
por onde tão longe andámos?
Como vagas obesas , há mulheres prenhes de tristezas,
cheias de saudades e cobertas de areia.
No areal das despedidas
lá para os lados de Belém...
...obesas de lágrimas...obesas de boas e más recordações...
...obesas de fome...e de companhia.
Numa pouco usual questão,
nos tempos que então
corriam,
gritavam no
dia-a-dia:
“Senhor, meu Deus, que faço da minha vida”?
Nov/020
Maria Elisa Ribeiro
POEMA
VOZES-DO-ALÉM-MAR-NAS-RIMAS-DOS CANTARES DE AMOR
Ouvi-te cantar nos ventos,
por entre pinheiros altos
que se perderam nas águas
da triste chuva dos tempos…
Ouvi-te cantar nos ventos…
(____________________Ficas mais longe, pelas tardes
______________ para onde os crepúsculos correm,
____________a descobrir gotas de orvalho,
_______ nos sinos onde os lamentos morrem…)
Caiu-me das mãos, o livro que leio ao entardecer…
Como animal ferido,
deixou-me aos pés a capa
que o protegia...
Pinheiros altos----altas-velas-a-navegar----choro triste…
…povo meu
que viveu a acenar-lenços-brancos, de esperança-em-riste.
Ouvi-te cantar nos ventos,
a melopeia que entoa o rasgar das velas,
ao desconhecerem que o tempo ia andando “in media res”.
Ouvi as ondas do mar, recheadas de espuma,
a vibrar
os ecos nostálgicos das vozes de Além-Mar,
semeadas de rimas dos nossos Cantos de Amor.
Ouvi-vos chorar, pinheiros de Portugal...
Maria Elisa Ribeiro
Junho/016
5Susana Duarte, Avelino Silva e 3 outras pessoas
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