sábado, 28 de setembro de 2013

O DESABAFO DA MÃE DO MINISTRO PAULO PORTAS

HELENA SACADURA CABRAL, MÃE DE PAULO PORTAS DIZ QUE É UMA MÃE INFELIZ...
LEIA O TEXTO ESCRITO POR ELA ... E PERCEBERÁ PORQUÊ...!

"Ontem tive o azar de apanhar o PM do país onde nasci, a explicar das suas razões para uma mais que certa retroactividade de cortes aos pensionistas "que estão a receber".(sic)

Fui educada numa família de gente séria que trabalhava para sustentar os seus e que considerava ser essa a obrigação de todos aqueles que tinham decidido constitui-la.

Trabalho para viver do modo que sempre vivi, pois a reforma que recebo e o que este Estado me tira - estou a ser educada - não me permitiriam viver apenas dela. E tenho a sorte de ainda haver quem prefira comprar um livro meu a uma camisola básica.Essa é que é essa.

Dito isto, desliguei a televisão irritadíssima. Pronunciei alto umas palavras que não costumo usar e deitei-me. Tive uma noite de insónia, revoltada com o que ouvira e decidi que ninguém me poria a vista em cima nesta fim de semana. Era a minha única forma de evitar eventuais desaguisados.

Hoje levantei-me e fui à missa pela minha Mãe, que faria anos se fosse viva. E sabem que mais? Fui comer sardinhas assadas lá para as bandas do Tejo, beber sangria e caminhar ao sol. Desanuviei

O Dr Gaspar e a reforma do Estado podem levar-me a pensão, podem levar-me o pouco que tenho no banco para uma doença, mas não hão-de conseguir nem levar-me a voz, nem levar-me a alegria de estar viva. Porque eu não quero e porque eu não deixo!
(Helena Sacadura Cabral)
Foto: HELENA SACADURA CABRAL, MÃE DE PAULO PORTAS DIZ QUE É UMA MÃE INFELIZ...
LEIA O TEXTO ESCRITO POR ELA ... E PERCEBERÁ PORQUÊ...!

"Ontem tive o azar de apanhar o PM do país onde nasci, a explicar das suas razões para uma mais que certa retroactividade de cortes aos pensionistas "que estão a receber".(sic)

Fui educada numa família de gente séria que trabalhava para sustentar os seus e que considerava ser essa a obrigação de todos aqueles que tinham decidido constitui-la.

Trabalho para viver do modo que sempre vivi, pois a reforma que recebo e o que este Estado me tira - estou a ser educada - não me permitiriam viver apenas dela. E tenho a sorte de ainda haver quem prefira comprar um livro meu a uma camisola básica.Essa é que é essa.

Dito isto, desliguei a televisão irritadíssima. Pronunciei alto umas palavras que não costumo usar e deitei-me. Tive uma noite de insónia, revoltada com o que ouvira e decidi que ninguém me poria a vista em cima nesta fim de semana. Era a minha única forma de evitar eventuais desaguisados.

Hoje levantei-me e fui à missa pela minha Mãe, que faria anos se fosse viva. E sabem que mais? Fui comer sardinhas assadas lá para as bandas do Tejo, beber sangria e caminhar ao sol. Desanuviei

O Dr Gaspar e a reforma do Estado podem levar-me a pensão, podem levar-me o pouco que tenho no banco para uma doença, mas não hão-de conseguir nem levar-me a voz, nem levar-me a alegria de estar viva. Porque eu não quero e porque eu não deixo!
(Helena Sacadura Cabral)O DeSBAFO

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

BOA NOITE, AMIGOS DE TODO O MUNDO, QUE ME VISITAIS!


POEMA: AMANHÃ

POEMA:AMANHÃ


AMANHÃ


O Amanhã é sempre inesquecível…
…é imprevisível o tempo-do-seu-SER…


No Amanhã podem colher-se os frutos que não
amadurecem Hoje…
Pode limpar-se o espelho empoeirado,
cheio de amarras
que ignoram a vida dos homens,
que andam a mudar os caixilhos do mundo.


No Amanhã imprevisível, talvez eu seja [capaz

de completar o poema de fogo da vida
que ‘inda não escrevi,

por ser segredo a tua verdade nos meus [versos,

submersos em interrogações!


(É segredo o amor que fizemos, como da primeira vez…)


Mas, só no Amanhã possível, de todo imprevisível,
o poderei confessar… para te recordar…e perturbar, também…

Depois de ti, o céu foi embora…não mais voltou…
Eu fiquei a contemplar…
…a contemplar-desejar…
… desejar a Vida quente que hibernou no mistério do teu corpo,
absorto na contemplação de milhentas belas flores…

Quase perdi o verbo brilhar, que o [sol

mandava para me animar…

onde contemplei
a memória dos atalhos da montanha
onde te percorri…


( Minha fome-de-Ser!)


E vejo os frutos-seios-das-árvores a sorrirem ao sol,
…que possui as águas das puras cascatas
que têm por dentro o Sonho-das-matas.

Os meus sonhos?


…esses vivem nas asas das aves
que se estendem
aos ventos de Ontem …

Os de Amanhã permanecem imprevisíveis, na dúvida fatal !


Volto ao leme da vida…
…o homem do leme não pode sonhar…
…não anda à deriva!


Guardo o meu Poema…minha viagem que devo completar
ao leme das tuas mãos, num Amanhã que se esqueça
que- foi- a- dúvida- de- Hoje !




Maria Elisa Rodrigues Ribeiro


Marilisa Ribeiro-SET/012-C 15P-8(VDS)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Poema de Afonso Duarte(1884-1958)

Poesia de Afonso Duarte (1884-1958):

in O Citador


Paisagem Única

Olhas-me tu: e nos teus olhos vejo
Que eu sou apenas quem se vê: assim
Tu tanto me entregaste ao teu desejo
Que é nos teus olhos que eu me vejo a mim.

Em ti, que bem meu corpo se acomoda!
Ah! quanto amor por os teus olhos arde!
Contigo sou? — perco a paisagem toda...
Longe de ti? — sou como um dobre à tarde...

Adeuses aos casais dessas Marias
Em cuja graça o meu olhar flutua,
Tudo o que amei ao teu amor o entrego.

Choupos com ar de velhas Senhorias,
Castelo moiro donde nasce a Lua,
E apenas tu, a tudo o mais sou cego.

Afonso Duarte, in "Ritual do Amor"

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

POEMA: PROFUNDO-FEMININO-LÍRICO







POEMA:


PROFUNDO- FEMININO-LÍRICO

.soltam-se fios de ouro do sol à passagem felina das estrelas
perfumadas de luar,
que se instalam numa especial redoma de palavras de amor.

Alarga-se um cerco de ternura que ganha corpo na doçura do odor
da minha mão, que pede à tua um beijo
ao estender-se para a força da luz da lua
quarto-crescente, a rebolar pelas pedras de uma nascente-em-flor…
…dentro de mim…dentro de nós…ao som de um botão a explodir rubra cor!

Profundo-feminino-lírico!

_________________onde nossas bocas são o centro de um universo___________________
______________onde teu rosto se desenha nas searas e campos lavrados______________
_________________________no verso-do-meu-inverso___________________________

___________________________nascente a explodir prazer
_______________________________prazer de existir a ser
___________________________________hora a anoitecer
________________________________o profundo feminino
__________________________________do meu querer-te
_________________________________no dia a desvanecer
_______________________________em meu corpo vertical!


Noite recta noite erecta noite inacabada
nos desmaios de queimar cinzas das bibliotecas, que ruíram ao anoitecer!


Noite vermelha…
vermelho odor de seios de brancas rosas…
sangue rubro dentro de um Sonho!


Que belo é o anoitecer da seara onde volteia, rodopiando,
o perfume de Florbela-Mulher-Amor!


.perfume aceso. sorriso de trigo quente. olhar ardente
no rosto rubro da nossa voz –que-diz-SIM!


Depois…
…um clarão cresce dentro do florear da madrugada ,nos campos magnéticos
que são teus braços nos meus, dentro de sombras que um céu protegeu


e…
…há uma busca de permanente harmonia no reconhecer cada fresta de nós,
sem querer saber do Tempo que pode durar uma hora-de-nós-sem-voz…

…porque o amor dura sempre uma eternidade frenética
e eu não conheço o mapa do teu coração…

Mas sei que ouves a voz que se desprende das clareiras floridas,
e dos rios sussurrantes de brisas entontecidas…

Maria Elisa R. Ribeiro
(Marilisa Ribeiro)
CQ16-(ERTS)- MARÇO/013

Poema de FERNANDO NAMORA (1919-1989)



Por Todos os Caminhos do MundoA minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,

por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,

ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do oásis,
ora os pés cansados, sem forças para além.

Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.

Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.

Não sei caminhos de cor.

Fernando Namora, in 'Mar de Sargaços'

terça-feira, 24 de setembro de 2013

POEMA DE EDGAR ALLAN POE (1909-1949)





















Santa Maria! Volve o teu olhar tão belo,
de lá dos altos céus, do teu trono sagrado,
para a prece fervente e para o amor singelo
que te oferta, da terra, o filho do pecado.

Se é manhã, meio-dia, ou sombrio poente,
meu hino em teu louvor tens ouvido, Maria!
Sê, pois, comigo, ó Mãe de Deus, eternamente,
quer no bem ou no mal, na dor ou na alegria!

No tempo que passou veloz, brilhante,
quando nunca nuvem qualquer meu céu escureceu,
temeste que me fosse a inconstância empolgando
e guiaste minha alma a ti, para o que é teu.

Hoje, que o temporal do Destino ao Passado
e sobre o meu Presente espessas sombras lança,
fulgure ao menos meu Futuro, iluminado
por ti, pelo que é teu, na mais doce esperança.

Edgar Allan Poe

POEMA: MAIOR QUE UM CHORO...






MAIOR QUE UM CHORO


Abrir caminho ao longo das memórias é ir, fatalmente,
ao nosso encontro ao Tempo-Passado e
ao percurso que fizemos,  a partir do-que-fomos-sendo.
Com plena consciência, assumo que sou somente o Agora
em que me movo, em cada Segundo- Presente-Futuro,
lago obscuro, onde não sei se ainda existe um verbo nadar.

O céu brilha a vida dos raios de sol.
A Natureza É…naturalmente bela
 como foi-nascendo,
a  amadurecer na beleza natural de SER.

Do pensamento, sopram-me ideias de jardins belos, eternamente  viçosos,
onde as flores vivem a abanar ao som das brisas precisas -no-existir
e as árvores ramalham músicas do cantar das aves, em suaves sinfonias,
constantes-no-porvir.

Olho, além, onde umas tiritas do rio refrescam as velas do veleiro a deslizar…
Nada me engana…vejo o mundo-a-ser, passando por mim como as águas a correr…
…mas sofro!
E intrigam-me as palavras que mordo e me borbulham na língua,
 caindo para o papel…
amor      desamor        libertação       vida       morte…OUTONO!

…Outono-regra das folhas douradas a cairem-para-voltar-a-Ser…
…ruído de um silêncio maior, que a Vida sabe de cor…um silêncio sabedor
do marulhar dos pensamentos,
 em tímidos ribeiros- do- chocalhar dos rebanhos …

Hoje, meu poema é um segredo, onde choro.

No meio do fumo de um cigarro, entranha-se o sol langoroso e quente,
imune às humanas crises…permanentes…persistentes…doentes -de -Ser!



Maria Elisa Rodrigues Ribeiro

(MERR)—REG (MST)-SET/013-(CR)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Artigo sobre a morte de ANTÓNIO RAMOS ROSA





ANTÓNIO RAMOS ROSA



Este não é o artigo que eu gostaria de escrever sobre o grande poeta, acabado de desaparecer. Isso, fica para mais tarde, com outra preparação. Estas são palavras deste momento, ditadas pela emoção do seu afastamento físico, do nosso meio.

Quero que sejam vistas como palavras “de circunstância” que o coração me dita, sem pretensões a saber o mais apropriado, em termos de grandeza literária, para honrar o nome de Ramos Rosa.

Fui ler a “ADVERTÊNCIA”, de Almeida Garrett, às “FOLHAS CAÍDAS”, sua obra poética em honra de Rosa de Montufar.
Trancrevo:
…”Antes que venha o Inverno…= morte…
“Deixai-o passar(o poeta), gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da glória. Ele não entende bem disso, e vós não entendeis nada dele.
Deixai-o passar, porque ele vai onde vós não ides;(…) vai, porque é espírito e vós sois matéria.
E vós morrereis,  ele não.(…) Mas não triunfais, porque a morte não passa do corpo que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta”


Ainda hoje estive a ler os poemas da obra “Gravitações” do autor, publicada por “LITEXA PORTUGAL”, 1983, que, estranhamente, suscitaram em mim uma vontade “normal” de, pela primeira vez, aflorar o tema que mais aterroriza o Homem, a morte inexorável, o fim de tudo o que nos foi destinada, desde a hora em que nascemos, sem ter pedido a Ninguém.

No poema “Celebração da terra” , escrito naquele estilo incomparável que só o poeta podia usar, diz ele, a terminar:
…
“Não há labirintos mas carreirinhos e horizontes clareiras/
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio/”
Na verdade, os carreirinhos, os labirintos da vida que se agita, nos dias, apenas confirma que o silêncio reinará, no Momento…

O Poema “O lugar”, também ele num estilo inconfundível, saído das raízes mais profundas da subjectividade poética de Ramos Rosa, afirma, a certa altura da 2ª estrofe:
…
“Algo está por dizer(…)

É verdade, poeta! Algo fica sempre por dizer, quando o espírito é como o teu e o de todos os que “por obras valerosas se vão da lei da morte libertando…”
“Não busques não esperes” dizias no poema “Onde os deuses se encontram”…Buscaste sempre, mas inexoravelmente, não podias, como todos nós, “esperar”…Esperar , o quê, meu amigo, meu “familiar” da Cultura, meu émulo? Bem sei que foste o arauto da busca constante e que não cessaste de aspirar ao essencial, pois é no poema que o real se dá a conhecer…e que no poema é que o poeta se conhece…Mas sei que esse conhecimento é incompleto, precário e provisório. Não somo nós humanos, imperfeitos – na-nossa-precária- perfeição?

Da tua Poesia falaram tantos nomes célebres da grandiosidade poética, por todo o mundo. Tenho na mão uma obra onde o também imortal Jorge de Sena, diz:…”no equilíbrio entre uma sempre a ultrapassar-se amargura adolescente e uma firmeza de tom que se oculta num estilo aparentemente entrecortado e difuso”
A poesia foi a tua sala de espera para poderes encontrar amigos. Nela me encontrei, eu, pequena coisa, contigo, tantas vezes, sem saberes de mim…ou dos Outros…os tantos milhares…milhões-quem sabe? que te sorveram o mel da PALAVRA.

“TUDO ESTÁ NO SEU SÍTIO”

PAZ À TUA ALMA LINDA!
Mealhada, 23 de Setembro de 2013


Maria Elisa Rodrigues Ribeiro

MORREU, AOS 88 ANOS, UM OUTRO NOME "MAIOR" DAS LETRAS PORTUGUESAS: O POETA ANTÓNIO RAMOS ROSA.




O POETA MORREU...VIVA O POETA!






ATRAVÉS DE "PÚBLICO CULTURA":


Morreu o poeta António Ramos Rosa
LUÍS MIGUEL QUEIRÓS 23/09/2013 - 16:15 (actualizado às 18:17)
Autor de uma das obras poéticas mais extensas e marcantes da poesia portuguesa contemporânea, António Ramos Rosa morreu esta segunda-feira aos 88 anos.


António Ramos Rosa na sua casa em 2004 DAVID CLIFFORD/ARQUIVO
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TÓPICOS
Livros
António Ramos Rosa
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Os 80 anos de António Ramos Rosa
Morreu esta segunda-feira em Lisboa, aos 88 anos, o poeta e ensaísta António Ramos Rosa, um dos nomes cimeiros da literatura portuguesa contemporânea, autor de quase uma centena de títulos, de O Grito Claro (1958), a sua célebre obra de estreia, até Em Torno do Imponderável, um belo livro de poemas breves publicado em 2012. Exemplo de uma entrega radical à escrita, como talvez não haja outro na poesia portuguesa contemporânea, Ramos Rosa morreu por volta das 13h30 desta segunda-feira, em consequência de uma infecção respiratória.

Além da sua vastíssima obra poética, escreveu livros de ensaios que marcaram sucessivas gerações de leitores de poesia, como Poesia, Liberdade Livre (1962) ou A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), traduziu muitos poetas e prosadores estrangeiros, sobretudo de língua francesa, e organizou uma importante antologia de poetas portugueses contemporâneos (a quarta e última série das Líricas Portuguesas). Era ainda um dotado desenhador.

Prémio Pessoa em 1988, António Ramos Rosa, natural de Faro, recebeu ainda quase todos os mais relevantes prémios literários portugueses e vários prémios internacionais, quer como poeta, quer como tradutor.

Já muito fragilizado, o poeta, que estava hospitalizado desde quinta-feira, teve ainda forças para escrever esta manhã os nomes da sua mulher, a escritora Agripina Costa Marques, e da sua filha, Maria Filipe. E depois de Maria Filipe lhe ter sussurrado ao ouvido aquele que se tornou porventura o verso mais emblemático da sua obra – “Estou vivo e escrevo sol” –, o poeta, conta a filha, escreveu-o uma última vez, numa folha de papel.

Para Pedro Mexia, poeta e crítico, Ramos Rosa mostrou, nomeadamente através das revistas que dirigiu e da primeira fase da sua obra poética, “que era necessário superar a dicotomia fácil entre a poesia ‘social’ e a poesia ‘pura’, e que o trabalho sobre a linguagem não impedia o empenhamento cívico”. Como ensaísta, continua Mexia, Ramos Rosa esteve atento ao panorama europeu e mundial, de René Char a Roberto Juarroz, e aos autores portugueses das últimas décadas, incluindo os novos: “Descobri muitos poetas através de obras como Poesia, Liberdade Livre ou Incisões Oblíquas.

Autor "muitíssimo prolífico", "nunca se afastou do seu caminho pessoal, mesmo quando a abundância e a insistência numa 'poesia sobre a poesia' fizeram com que nos esquecêssemos da sua importância decisiva."

Com Isabel Salema

POEMA DE ÁLVARO DE CAMPOS (HETERÓNIMO DE FERNANDO PESSOA)-via Net













Poema de Álvaro de Campos (PESSOA): longo, lindo como são todos os poemas deste Heterónimo de Fernando Pessoa :

A Casa Branca Nau PretaEstou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se...
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro...
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora...
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim...
Há uma interrupção lateral na minha consciência...
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par...
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma...

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois...
Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem...
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir...

As naus seguiram,
Seguiram viagem não sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho...

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela,
Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,
Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,
Não poder eu fazer qualquer coisa gênero haver árvores que deixasse de doer,
Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.
E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão...

Que sonhos? ... Eu não sei se sonhei ... Que naus partiram, para onde?
Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira
Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores?
Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer?

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele,
Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto
E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir...

Não há, substância de pensamento na matéria de alma com que penso ...
Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz,
E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.

Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe
A casa branca distante onde mora... Fecho o olhar...
E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver
São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta.
E eu, parado, mole, adormecido,
Tenho o mar embalando-me e sofro...

Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva.
As escadas dando sobre o mar inatingível ela não alberga.
Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa.
Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico
E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando.

Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia
Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá?

Úmida sombra nos sons do tanque noturna sem lua, as rãs rangem,
Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói.

Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos,
Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os atos,
Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa,
E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas...

A casa branca nau preta...
Felicidade na Austrália...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa -in NET

O PENSAMENTO (via NET) de JOHN STEINBECK (1902-1968)

O pensamento de JOHN STEINBECK (1902-1968), autor de "A Leste do Paraíso, entre outros.


"A Mente Livre Está em Perigo

A nossa espécie é a única espécie criativa, e tem apenas um único instrumento criativo, a mente e espírito únicos de cada homem. Nunca nada foi criado por dois homens. Não existem boas colaborações, quer em arte, na música, na poesia, na matemática, na filosofia. De cada vez que o milagre da criação acontece, um grupo de pessoas pode construir com base nela e aumentá-la, mas o grupo em si nunca inventa nada. A preciosidade reside na mente solitária de cada homem.

E agora existem forças que enaltecem o conceito de grupo e que declararam uma guerra de exterminação a essa preciosidade, a mente do homem. Através das mais variadas formas de pressão, repressão, culto, e outros métodos violentos de condicionamento, a mente livre tem sido perseguida, roubada, drogada, exterminada. E este é um rumo de suicídio colectivo que a nossa espécie parece ter tomado.

E é nisto que eu acredito: que a mente livre e criativa do homem individual é a coisa mais valiosa no mundo. E é por isto que eu estou disposto a lutar: pela liberdade da mente tomar qualquer direcção que queira, sem direcção. E é contra isto que eu vou lutar com todas as minhas forças: qualquer religião, qualquer governo que limite ou destrua o indivíduo. É isto que eu sou e é esta a minha causa. Posso até compreender que um sistema baseado num padrão tenha que destruir a mente livre, pois esta é a única coisa que pode inspeccionar e destruir um sistema deste tipo. Concerteza que compreendo, mas lutarei contra isso por forma a preservar a única coisa que nos separa das restantes espécies. Pois se a mente livre for morta, estaremos perdidos.

John Steinbeck, in 'A Leste do Paraíso'-in NET

sábado, 21 de setembro de 2013

A RAI TRE , REDE DE TELEVISÃO ITALIANA, RETRATA PORTUGAL COMO UM PAÍS DE MISÉRIA, ONDE SE PASSA FOME

Televisão italiana retrata um Portugal em crise e com fome
20 de setembro de 2013 por as minhas leituras deixe um comentário
Presa Diretta
Há um ano e meio, a televisão italiana Rai3 esteve em Portugal para avaliar o impacto da política de austeridade exigida pela troika e aplicada pelo recém-eleito Governo de coligação PSD/CDS, agora regressou para perceber as mudanças.

Coincidência ou não, a reportagem foi realizada no mesmo dia em que o Banco Alimentar realizou uma campanha de recolha de alimentos para ajudar os mais carenciados, que são muitos como fazem questão de sublinhar alguns voluntários ouvidos pela repórter da Rai3. Mas esta não foi a única questão a ser abordada.

Surpreendida com as filas nos centros de emprego e os anúncios de trabalho que oferecem salários entre os 400 e 500 euros, a jornalista italiana explica que a emigração, nomeadamente para as ex-colónias portuguesas, tem sido “o destino de muitos portugueses, principalmente de muitos licenciados”. É também entrevistado um casal na casa dos 50 anos que conta como vive com apenas 25 euros por semana. A juntar a isto são transmitidas imagens de muitos portugueses a protestar na rua contra a austeridade.

Além do povo, revoltado e com fome, a Rai3 conversou com a presidente do Banco Alimentar, Isabel Jonet, que revela que “milhares de portugueses não comem, pelo menos, um dia por semana, porque não têm dinheiro” e que “muitas crianças só comem uma vez por dia”. A este testemunho, o fundador da AMI, Fernando Nobre, junta outra preocupação: “Se continuarmos assim, em poucos meses, não vamos ter capacidade de resposta”.

Sobre a economia do País, o antigo ministro Bagão Félix afirma que as privatizações que o Governo tem levado a cabo “não resolvem os problemas e ainda enfraquecem a soberania de Portugal”. Enquanto, o antigo Presidente da República, Mário Soares, sublinha “a importância da Europa acabar com esta fixação pela austeridade”, sob pena de “acabar no abismo”.

Neste programa ‘Presa Diretta’ da Rai3 são ainda apresentadas reportagens sobre a situação que se vive actualmente noutros países, como Alemanha, França e algumas regiões italianas.



Via Notícias ao Minuto

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- See more at: http://www.leituras.eu/?p=11206#sthash.ZHkuMhqx.xwvxePb5.dpuf

Televisão italiana retrata um Portugal em crise e com fome
www.leituras.eu
Uma televisão italiana emitiu, esta semana, uma reportagem sobre Portugal, com testemunhos de algumas personalidades como Bagão Félix, Fernando Nobre ou Mário Soares, na qual fala sobre um país empobrecido, entristecido e que, com frequência, sai à rua em protesto contra a austeridade.

O Pensamento de RAMALHO ORTIGÃO (1836-1915):in www.iscsp.utl.pt


























José Duarte Ramalho Ortigão. Jornalista no Porto. Participa na questão Coimbrã em 1868. Fixa-se em Lisboa a partir de 1868. Em Maio de 1871 começa a publicar, com Eça de Queirós, "As Farpas". Bibliotecário da Ajuda de 1895 até 1910. (Ver Rodrigues Cavalheiro, A Evolução Espiritual de Ramalho, Lisboa, 1962). Em 1870 critica o governo de Ávila. Ramalho Ortigão questionava Porque motivo são reformistas de oposição hoje os que eram reformistas governamentais ontem?, acrescentando que os reformistas ignoram qual é a divisa que os separa pela mesma razão que nunca souberam qual era o mote que os reunia. Um partido sem conhecimentos, sem princípios, sem bases de trabalho, sem plano de administração, sem consciência de progresso e sem carta, nem guia, nem lógica de acção, não tendo razão para existir, também não tem razão para deixar de ser. Reformista é uma palavra farfalhuda, mas oca, nome convencional sem objecto em política. Ramalho Ortigão questionava Porque motivo são reformistas de oposição hoje os que eram reformistas governamentais ontem?, acrescentando que os reformistas ignoram qual é a divisa que os separa pela mesma razão que nunca souberam qual era o mote que os reunia. Um partido sem conhecimentos, sem princípios, sem bases de trabalho, sem plano de administração, sem consciência de progresso e sem carta, nem guia, nem lógica de acção, não tendo razão para existir, também não tem razão para deixar de ser. Reformista é uma palavra farfalhuda, mas oca, nome convencional sem objecto em política. Observa o seguinte, em 1874,: como os partidos militantes que aspiram ao poder ou que o exercem , são três em cada legislatura, os votos da câmara acham-se por tal modo fraccionados, que nenhum dos referidos partidos pode ter jamais a maioria absoluta. Como, por outro lado, esses três partidos abraçam todos os mesmos princípios e as mesmas ideias, nasce naturalmente em cada sessão legislativa um quarto partido que desempata a questão pessoal de se saber qual dos três partidos em luta deve trazer atrás de si os srs. Correios de secretaria com as respectivas pastas. Um cavalheiro, tendo à sua disposição quinze votes conformes, decide da direcção que deve tomar em cada manhão trote dos ginetes dos srs. Correios. Os vinte votos ecléticos, flutuantes, de que esse cavalheiro dispõe, postos já para a direita, já para a esquerda da câmara, determinam a sorte dos ministérios e das oposições e decidem em derradeira instância dos destinos públicos. Por outras palavras, a ideia governativa passa sucessivamente das mãos do sr. Fontes para as do sr. marquês de Ávila, para as do sr. Bispo de Viseu, para as do sr. Anselmo Braamcamp Mais escreve: o monarca lavrou então o decerto mandando o seu antigo ministério bochechar e encarregou o senhor marquês de Ávila e Bolama de reunir com os seus amigos o número de dentes necessários para formar uma gerência duradoura e firme. O mesmo autor observa em 1877 que em Portugal em vez da lógica conservadores/ revolucionário havia uma maioria parlamentar e uma oposição composta de vários grupos dissidentes. Estes grupos são fragmentos dispersos do único partido existente – o partido conservador – fragmentos cuja gravitação constitui o organismo do poder legislativo. Estes partidos, todos conservadores, não tendo princípios próprios nem ideias fundamentais que os distingam uns dos outros, sendo absolutamente indiferente para a ordem e o progresso que governe um deles ou que governe qualquer dos outros, conchavaram-se todos e resolveram de comum acordo revesarem-se no poder e governarem alternadamente segundo o lado para que as despesas da retórica nos debates ou a força da corrupção na urna faça pesar a balança da régia escolha. Tal é o espectáculo recreativo que há vinte anos nos está dando a representação nacional. Porque em todas as revoluções vitoriosas há uma parte que vinga para a posteridade e uma parte que se desconta nas restaurações subsequentes. O que vinga é o fruto da razão ou a forçadas coisas. O que se desconta num retrocesso proporcional é a obra da paixão, do sacrifício, do entusiasmo partidário. Em Julho de 1911 critica o regime: pretender equiparar o espírito revolucionário da Rotunda com o espírito revolucionário da Revolução Francesa é incorrer perante a sociologia e perante a história em tão imbecil equívoco como seria em zoologia o de confundir uma lombriga com uma cobra cascavel. No dia 5 de Outubro, em Portugal, não havia opressão e não havia fome… Os famosos princípio da Revolução Francesa, leit-motiv de toda a cantata revolucionária de Outubro último, são, precisamente, os que vigoram em toda a política portuguesa, desde o advento da revolução liberal de 34 até aos nossos dias. Em 7 de Setembro de 1914, numa célebre carta de um velho a um novo, dirigida a João Amaral, apoia o Integralismo Lusitano.




Bibliografia:



·As Farpas

(1871 - 1884) (em colaboração com Eça de Queirós, 1871 - 1872).

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Do poeta português EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005), "ELEGIA DE SETEMBRO"

Pequena elegia de Setembro














"Não sei como vieste,

mas deve haver um caminho

para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,

as mãos no regaço cheias de doçura,

os olhos pousados nas últimas rosas

dos grandes e calmos dias de setembro.



Que música escutas tão atentamente

que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?

Ou é dentro de ti

que tudo canta ainda?



Queria falar contigo,

dizer-te apenas que estou aqui,

mas tenho medo,

medo que toda a música cesse

e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio

com que teces os dias sem memória.



Com que palavras

ou beijos ou lágrimas

se acordam os mortos sem os ferir,

sem os trazer a esta espuma negra

onde corpos e corpos se repetem,

parcimoniosamente, no meio de sombras?



Deixa-te estar assim,

ó cheia de doçura,

sentada, olhando as rosas,

e tão alheia

que nem dás por mim."

O pensamento profético do escritor Eça de Queiroz (1845-1900)- pesquisa NET















O Pensamento de Eça de Queiroz (1845-1900)

-pesquisa Net -


O Que Verdadeiramente Mata Portugal
"O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.

O que nos magoa é ver que só há energia e actividade para aqueles actos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho.
Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados: as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projecto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas.

O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: «A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos.»


Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

POEMA GRANDIOSO DO NOSSO POETA JOSÉ RÉGIO:"CÂNTICO NEGRO"(através de WWW. releituras.com)




Cântico negro
José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio
, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos












Bagão Félix e o "roubo" das pensões-recebido por email


Trabalho notável . Não deixem de ler tudo. E não esqueçam ?


BAGÃO FÉLIX - TRIBUTAÇÃO SOBRE PENSÕES

Pelas razões da sua inegável oportunidade e importante valia da forma e do conteúdo, com a devida vénia, transcrevemos do? Público, o excelente artigo do Dr. António Bagão Félix.

A GROSSEIRA INCONSTITUCIONALIDADE
DA TRIBUTAÇÃO SOBRE PENSÕES

Aprovado o OE 2013, Portugal arrisca-se a entrar no "Guinness Fiscal" por força de um muito provavelmente caso único no planeta: a partir de um certo valor (1350 euros mensais), os pensionistas vão passar a pagar mais impostos do que outro qualquer tipo de rendimento, incluindo o de um salário de igual montante! Um atropelo fiscal inconstitucional, pois que o imposto pessoal é progressivo em função dos rendimentos do agregado familiar [art.º 104.º da CRP], mas não em função da situação activa ou inactiva do sujeito passivo e uma grosseira violação do princípio da igualdade [art.º 13.º da CRP].

Por exemplo: um reformado com uma pensão mensal de 2200 euros pagará mais 1045 ? de impostos do que se estivesse a trabalhar com igual salário (já agora, em termos comparativos com 2009, este pensionista viu aumentado em 90% o montante dos seus impostos e taxas!)..


Tudo isto por causa de uma falaciosamente denominada "contribuição extraordinária de solidariedade" (CES), que começa em 3,5% e pode chegar aos 50%. Um tributo que incidirá exclusivamente sobre as pensões. Da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações. Públicas e privadas. Obrigatórias ou resultantes de poupanças voluntárias. De base contributiva ou não, tratando-se por igual as que resultam de muitos e longos descontos e as que, sem esse esforço contributivo, advêm de bónus ou remunerações indirectas e diferidas.
Nas pensões, o Governo resolveu que tudo o que mexe leva! Indiscriminadamente. Mesmo - como é o caso - que não esteja previsto no memorando da troika.
Esta obsessão pelos reformados assume, nalguns casos, situações grotescas, para não lhes chamar outra coisa.
Por exemplo, há poucos anos, a Segurança Social disponibilizou a oferta dos chamados "certificados de reforma" que dão origem a pensões complementares públicas para quem livremente tenha optado por descontar mais 2% ou 4% do seu salário. Com a CES, o Governo decide fazer incidir mais impostos sobre esta poupança do que sobre outra qualquer opção de aforro que as pessoas pudessem fazer com o mesmo valor...
Ou seja, o Estado incentiva a procura de um regime público de capitalização (sublinho, público) e logo a seguir dá-lhe o golpe mortal. Noutros casos, trata-se - não há outra maneira de o dizer - de um desvio de fundos através de uma lei: refiro-me às prestações que resultam de planos de pensões contributivos em que já estão actuarialmente assegurados os activos que caucionam as responsabilidades com os beneficiários.

Neste caso, o que se está a tributar é um valor que já pertence ao beneficiário, embora este o esteja a receber diferidamente ao longo da sua vida restante. Ora, o que vai acontecer é o desplante legal de parte desses valores serem transferidos (desviados), através da dita CES, para a Caixa Geral de Aposentações ou para o Instituto de Gestão Financeira da S. Social!

O curioso é que, nos planos de pensões com a opção pelo pagamento da totalidade do montante capitalizado em vez de uma renda ou pensão ao longo do tempo, quem resolveu confiar recebendo prudente e mensalmente o valor a que tem direito verá a sua escolha ser penalizada. Um castigo acrescido para quem poupa.
Haverá casos em que a soma de todos os tributos numa cascata sem decoro (IRS com novos escalões, sobretaxa de 3,5%, taxa adicional de solidariedade de 2,5% em IRS, contribuição extraordinária de solidariedade (CES), suspensão de 9/10 de um dos subsídios que começa gradualmente por ser aplicado a partir de 600 euros de pensão mensal!) poderá representar uma taxa marginal de impostos de cerca de 80%!

Um cataclismo tributário que só atinge reformados e não rendimentos de trabalho, de capital ou de outra qualquer natureza! Sendo confiscatório, é também claramente inconstitucional. Aliás, a própria CES não é uma contribuição. É pura e simplesmente um imposto.
Chamar-lhe contribuição é um ardil mentiroso. Uma contribuição ou taxa pressupõe uma contrapartida, tem uma natureza sinalagmática ou comutativa. Por isso, está ferida de uma outra inconstitucionalidade. É que o já citado art.º 104.º da CRP diz que o imposto sobre o rendimento pessoal é único.


Estranhamente, os partidos e as forças sindicais secundarizaram ou omitiram esta situação de flagrante iniquidade. Por um lado, porque acham que lhes fica mal defender reformados ou pensionistas desde que as suas pensões (ainda que contributivas) ultrapassem o limiar da pobreza. Por outro, porque tem a ver com pessoas que já não fazem greves, não agitam os media, não têm lobbies organizados.
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Pela mesma lógica, quando se fala em redução da despesa pública há uma concentração da discussão sempre em torno da sustentabilidade do Estado social (como se tudo o resto fosse auto-sustentável...). Porque, afinal, os seus beneficiários são os velhos, os desempregados, os doentes, os pobres, os inválidos, os deficientes... os que não têm voz nem fazem grandiosas manifestações. E porque aqui não há embaraços ou condicionantes como há com parcerias público-privadas, escritórios de advogados, banqueiros, grupos de pressão, estivadores. É fácil ser corajoso com quem não se pode defender.
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Foi lamentável que os deputados da maioria (na qual votei) tenham deixado passar normas fiscais deste jaez mais próprias de um socialismo fiscal absoluto e produto de obsessão fundamentalista, insensibilidade, descontextualização social e estrita visão de curto prazo do ministro das Finanças.

E pena é que também o ministro da Segurança Social não tenha dito uma palavra sobre tudo isto, permitindo a consagração de uma medida que prejudica seriamente uma visão estratégica para o futuro da Segurança Social. Quem vai a partir de agora acreditar na bondade de regimes complementares ou da introdução do "plafonamento", depois de ter sido ferida de morte a confiança como sua base indissociável?

Confiança que agora é violada grosseiramente por ditames fiscais aos ziguezagues sem consistência, alterando pelo abuso do poder as regras de jogo e defraudando irreversivelmente expectativas legitimamente construídas com esforço e renúncia ao consumo.
Depois da abortada tentativa de destruir o contributivismo com o aumento da TSU em 7%, eis nova tentativa de o fazer por via desta nova avalanche fiscal. E logo agora, num tempo em que o Governo diz querer "refundar" o Estado Social, certamente pensando (?) numa cultura previdencial de partilha de riscos que complemente a protecção pública. Não há rumo, tudo é medido pela única bitola de mais e mais impostos de um Estado insaciável.
Há ainda outro efeito colateral que não pode ser ignorado, antes deve ser prevenido: é que foram oferecidos poderosos argumentos para "legitimar" a evasão contributiva no financiamento das pensões. "Afinal, contribuir para quê?", dirão os mais afoitos e atentos. Este é mais um resultado de uma política de receitas "custe o que custar" e não de uma política fiscal com pés e cabeça.

Um abuso de poder sobre pessoas quase tratadas como párias e que, na sua larga maioria, já não têm qualquer possibilidade de reverter a situação. Uma vergonha imprópria de um Estado de Direito. Um grosseiro conjunto de inconstitucionalidades que pode e deve ser endereçado ao Tribunal Constitucional.

PS1: Com a antecipação em "cima da hora" da passagem da idade de aposentação dos 64 para os 65 anos na função pública já em 2013 (até agora prevista para 2014), o Governo evidencia uma enorme falta de respeito pela vida das pessoas. Basta imaginar alguém que completa 64 anos em Janeiro do próximo ano e que preparou a sua vida pessoal e familiar para se aposentar nessa altura. No dia 31 de Dezembro, o Estado, através do OE, vai dizer-lhe que, afinal, não pode aposentar-se.

Ou melhor, em alguns casos até poderá fazê-lo, só que com penalização, que é, de facto, o que cinicamente se pretende com a alteração da lei. Uma esperteza que fica mal a um Governo que se quer dar ao respeito.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013